edição nº 12 ano 2017
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Calorias e Preconceitos

Diz a lenda que Calorias são seres minúsculos, praticamente invisíveis, que se escondem nos armários (têm preferência pelos femininos) e trabalham a noite toda apertando as roupas.


Os Preconceitos são seres de tamanho e invisibilidade análogos, formando com as Calorias uma grande família de traço bem característico: a violência, seja moral ou física.


Calorias e Preconceitos compartilham ainda de outro traço: chegam como quem não quer nada (“É só um pedacinho de bolo...”, “Conhece a piada da loira que...”) e, sem que a gente se dê conta, passam a fazer parte de nós. E como é difícil enxergá-los e, mais ainda, acabar com eles...


Alguns Preconceitos circulam livremente à luz do dia, sem medo de serem vistos. Acham que têm razão e por isso se exibem. São truculentos e valentões. Massacram quem não concorda com seus pontos de vista, pois não possuem argumentos que resistam à reflexão ou à comprovação. Reproduzem-se de forma exuberante em diferentes lugares, especialmente em algumas épocas da História. Basta nos lembrarmos da prima Eugenia, que reinou absoluta na Alemanha nazista, dos primos Apartheid da África do Sul, dos diversos momentos de escravidão apoiados no ramo do Racismo. A geração mais jovem é chamada de Bullying, e está na crista da onda; mas, na verdade, ela existe desde sempre: só modernizaram o nome e a tornaram mais conhecida.


Outros Preconceitos, mais próximos das Calorias, se escondem em locais escuros e improváveis. São mestres do disfarce. Parecem inocentes e têm cara de bonzinho, o que dificulta sua identificação. Lembram o Gato do Shrek, com aquele olhar meigo, carente?... E, de repente, mostra as garras. É difícil identificá-los e desmascará-los. Estão em toda parte, mas têm predileção por escolas e empresas. Por conta das mudanças sociais, assumem diversas identidades, da sutil à declarada. Recentemente um Preconceito foi detectado numa escola que recebeu em seu grupo de estudantes uma criança com síndrome de Down, a qual, num belo dia, soltou um flato, como qualquer ser humano. Mas o Preconceito estava ligadão e não ia perder esta oportunidade de ouro! Fez com que as professoras telefonassem para a mãe, que saiu correndo do trabalho, passou em casa para pegar uma muda limpa e voou para a escola. Chegando lá, viu o filho feliz e saltitante: tinha sido só um flato, sem maiores consequências. Se fosse outra criança, sem deficiência, o Preconceito não teria esta oportunidade e não ficaria tão satisfeito consigo mesmo.


Alguns Preconceitos são musicais e podem ser encontrados, por exemplo, em marchinhas de Carnaval (“Eu sou o pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau...”) ou em sambas (“Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia...”, “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé...”, “Como a cor não pega, mulata, mulata quero teu amor...”). Este é um ramo da família extremamente resistente, pois fica na cabeça das pessoas, que saem cantarolando e os reproduzem sem perceber.


Outro ramo da família dos Preconceitos foi estabelecido no Reino da Carochinha, onde o diferente, o que não é igual a todos, mora no coração da floresta, como os Sete anões, que formam uma comunidade fechada e desconhecida. Alguns são malvados, como o Capitão Gancho. No Reino da Literatura Clássica o disforme, o que não é como os outros, também vive escondido e envergonhado, como o Corcunda de Notre Dame ou o Fantasma da Ópera. Ou é um ser amargo e atormentado, como o Capitão Ahab, que persegue Moby Dick incessantemente, considerando-a culpada por ter ficado sem sua perna.


Paula Maciel, da Argentina, é especialista em um grupo de Preconceitos soltando “frases assassinas”, que recebem este nome pelo poder de imobilizar pessoas e de inviabilizar ações, matando-as antes que nasçam. “Falei que não ia dar certo...”, “É melhor não mudar...”, “Não temos recursos...”, todas dignas de carregar o sobrenome da família.


Como o Preconceito começou?

Segundo alguns estudiosos, ele está conosco desde que o mundo é mundo. Entende-se que ele teve papel fundamental para garantir nossa sobrevivência enquanto espécie.


O que é o pré-conceito?

É a capacidade de formar juízos (conceitos) e de tomar decisões muito rapidamente. Imaginemos um grupo de hominídeos à procura de alimento num ambiente hostil. Estão famintos e encontram um fruto. É preciso decidir: “É de comer? É venenoso? Come com a casca? E o caroço? Parece com algo que já comemos? Se já, como nos sentimos depois?” Se não se decidirem e não agirem rapidamente, o outro simplesmente lhes rouba o fruto.


Situações semelhantes aconteciam quando o grupo se deparava com outro grupo de hominídeos ou com outro animal qualquer. Assim, o ser humano desenvolveu a habilidade de criar classificações e de aplicá-las imediatamente.


Os tempos mudaram, mas o ser humano conservou esta capacidade, já não útil para a sobrevivência. As pessoas continuam sendo classificadas: gordos são alegres e gostam de contar piadas; negros gostam de samba e de futebol; surdos são irritadiços; loiras são burras. Isto é tão perverso: será possível que coloquem um espelho na frente de uma pessoa e lhe digam: “Você é isto...”, “Esperamos que faça isso ou aquilo...”.


Estas expectativas são moldes que limitam os indivíduos, seus talentos e habilidades. Restringem nosso olhar e o olhar que tem de si a própria pessoa, a qual muitas vezes acredita que só é aquilo que a sociedade diz, que só consegue ver o que o espelho mostra.


Como acabar com a família dos Preconceitos?

É mais difícil acabar com eles do que com as Calorias. Estas requerem mudanças de hábitos alimentares e exercícios físicos, basicamente. Nos Preconceitos é preciso jorrar luz da Informação: eles não a toleram e fogem desembestados, abrindo caminho para que a Inclusão chegue e ocupe o espaço onde habitavam.


Eles podem voltar?

Sem dúvida nenhuma, e muitas e muitas vezes. São teimosos e resistentes estes monstrinhos. Afinal, por anos a fio viveram no “bem bom”, usufruindo do bom e do melhor. Além disso, os seres humanos, seus hospedeiros, também resistem às mudanças, pois mudar dá um trabalhão...


Mas uma coisa é certa: toda vez que a Informação os ilumina e os desmascara, eles  enfraquecem, enquanto a Inclusão conquista mais adeptos e espaço. Até que um dia....


Marta Gil

Marta Gil é consultora na área de inclusão de pessoas com deficiência; socióloga; coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas; pesquisadora; colunista da revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais; membro do conselho curador do Instituto Rodrigo Mendes. Autora do livro Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP (Editora SENAI, 2012); responsável pelo desenvolvimento da metodologia SESI/SENAI de gestão e qualificação profissional para inclusão de pessoas com deficiência. Organizou livros e publicações sobre inclusão, educação e educação profissional; tem artigos publicados; é conteudista de vídeos e de cursos de educação à distância (EAD); participa de eventos no Brasil e no exterior como palestrante.

 
 
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