edição nº 12 ano 2017
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O equilibrista
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Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas foi nele que espelhou o céu.

 

(Fernando Pessoa)

 

Bem, não foi assim tão trágico como o fragmento do poema de Fernando Pessoa, mas certamente foi esta uma decisão difícil: assumir meus cabelos brancos.


Onde estava a dificuldade? Afinal de contas, os primeiros fios brancos apareceram quando eu ainda estava na faculdade e, durante um bom tempo, eles ficaram assim, ao natural, bem curtinhos (me inspirava na Elis Regina). E isso não era um problema pra mim, aliás. Minha família sempre criticou mulheres que tingiam o cabelo, usando tons e semitons na voz, com significados subentendidos e pausas eloquentes.


Depois, começaram as pressões de amigos: Cabelo branco envelhece! Daí para a hena foi um pulo – também, com tamanha ameaça! Quem quer parecer velha aos 30 anos? E hena é natural, há séculos usada no Egito e na Índia – justificativas perfeitas para quem morava na Vila Madalena. Eu era natureba, comia macrô, fazia expressão corporal e usava batas indianas, saias longas e tamancos do Dr Scholl – o visual da época.


Quando a hena não deu mais conta, chegou o momento de as tinturas entrarem em cena. Quem fosse ao banheiro após uma aplicação deduziria que uma chacina tinha acontecido, tamanha sujeira.


Hora de ir pro salão e experimentar mechas, luzes, vários tons entre o louro e o castanho (a cor original). Foi um período divertido, quando me permiti experimentar, brincar com minha aparência, variando cortes e cores.


Não curto o ambiente de cabelereiros, mas a companhia de um bom livro fazia o tempo passar de um jeito gostoso. O chato era que, depois de um mês, “elas” apareciam, as temidas e temíveis raízes brancas! Implacáveis e teimosas, reclamando providências urgentes – e lá ia eu de volta pro salão.


Até que uma vozinha começou a soar nos meus ouvidos: Por que não parar de tingir o cabelo? Mas muitos se rebelaram: Imagine, como é que vai ser? O que as pessoas vão pensar? Será que alguém vai te convidar para trabalhar? Vão achar que você está velha, na hora de se aposentar...


Um dia, encontro uma amiga que não via há tempos: bonita, charmosa, cabelos brancos num corte moderno e – ousadia maior – com mechas azuis e lilás! Foi uma revelação.


Próxima cena: consulta com um visagista (profissional em imagem pessoal), que me surpreendeu com uma leitura bastante exata das linhas de meu rosto, do formato dos lábios, do jeito de sorrir. E, quando perguntei se poderia usar cabelos brancos sem ficar parecendo uma velhinha (pois não me sinto assim, absolutamente!), ele me tranquilizou.


Saí do salão impressionadíssima pela leitura dele: não tinha noção do quanto nós revelamos aos outros! E também por perceber, bem concretamente, como a vida esculpe o rosto, a postura, o olhar, e o quanto escrevemos nas linhas de nosso semblante.


Desde então, as raízes foram desafiadas – deixaram de ser temidas e temíveis. Há umas duas semanas, o “mago” fez uma alquimia nas mechas, e elas se transformaram em champanhe, a caminho do branco total.


Mas e o tal Bojador, lá do início? Onde é que ele entra nesta história toda?


O Cabo Bojador fica na África, bem na ponta do continente, e, na época das Grandes Navegações portuguesas, era conhecido como o Cabo do Medo. Ele foi responsável pelo desaparecimento de muitas embarcações, originando mitos sobre monstros marinhos que atacavam os navegantes e impediam a passagem dos navios às cobiçadas especiarias.


Até que Gil Eanes, em 1434, com uma pequena embarcação de apenas um mastro, uma vela e 15 homens na tripulação conseguiu ultrapassá-lo. E, para sua surpresa, deparou-se com uma baía plácida, com ventos amenos. O Bojador tinha ficado para trás. Fora conquistado.



Marta Gil

Marta Gil é consultora na área de inclusão de pessoas com deficiência; socióloga; coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas; pesquisadora; colunista da revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais; membro do conselho curador do Instituto Rodrigo Mendes. Autora do livro Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP (Editora SENAI, 2012); responsável pelo desenvolvimento da metodologia SESI/SENAI de gestão e qualificação profissional para inclusão de pessoas com deficiência. Organizou livros e publicações sobre inclusão, educação e educação profissional; tem artigos publicados; é conteudista de vídeos e de cursos de educação à distância (EAD); participa de eventos no Brasil e no exterior como palestrante.

 
 
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