edição nº 12 ano 2017
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Pode trazer um xampu anticaspa?

Na visita matinal à minha mãe, na UTI, a auxiliar de enfermagem, moça de jeito simples e discreto, me pede:

 

 Por favor, pode trazer um xampu anticaspa?


Olhei-a, atônita. A moça continuava me encarando, tranquila, à espera de uma resposta. Achei que não tinha entendido direito. Ela repetiu.

Minha surpresa se justificava: afinal, a cena se passava na UTI, onde minha mãe estava internada, sedada, há dias. 

Ela insistiu, justificando o pedido: minha mãe, com febre alta, tinha suado na cabeça, criando uma espécie de caspa. O xampu comum não estava dando conta. Ela queria um produto mais adequado.

Só consegui pronunciar um “sim” – quem disse que a voz saía? Estava tomada de emoção, além de admiração pela moça.

Que lição ela me deu, de respeito à vida, de cuidado com o outro, de atenção, de profissionalismo!

E tudo com a maior simplicidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo pedir um xampu anticaspa para uma pessoa acamada na UTI, para alguém no estado em que minha mãe se achava...

Com ela, aprendi que não se desiste da vida, mesmo nos momentos aparentemente mais adversos – sempre é possível caprichar no cuidado, investir na qualidade, apostar na força de renovação.

Minha mãe ficou internada durante três meses no Hospital Santa Catarina, na Avenida Paulista, em frente ao Grupo Escolar Rodrigues Alves, imponente construção do Escritório Ramos de Azevedo, também responsável pelo Theatro Municipal.

A referência ao Rodrigues Alves, como ela costumava chamar a atual Escola Estadual Rodrigues Alves, tem razão de ser: foi onde ela iniciou sua carreira no magistério. Desde menina queria ser professora. Fez o Curso Normal no Instituto de Educação Caetano de Campos, naquele prédio bonito na Praça da República. Sua mãe e algumas tias haviam estudado ali. A Escola da Praça, como também era conhecida, era uma das escolas de referência da época, valorizada e respeitada.

Minha mãe formou-se em primeiro lugar, conquistando o direito de assinar seu diploma com a caneta que havia pertencido ao próprio Caetano de Campos e, também, o de escolher onde exerceria sua profissão. As colegas iriam para bairros distantes ou para cidades do interior paulista.

Foi ainda na Caetano de Campos que ela fez três amigas que a acompanharam por toda a vida, na verdade, três irmãs de coração. Minha irmã e eu temos o privilégio de ter herdado essas amizades.

Lecionar no Rodrigues Alves foi a concretização do sonho da moça bonita que queria ser professora. Lá fez outras amigas, algumas também para a vida toda. E lá se especializou como alfabetizadora – e foi das melhores!

Os diretores encaminhavam os casos mais difíceis para ela, os alunos repetentes. No fim do ano, esses eram promovidos, já competentemente alfabetizados.

E, nas voltas que a vida dá, aos 87 anos, minha mãe volta para aquele mesmo quarteirão da Avenida Paulista, agora sem os tradicionais ipês amarelos e os belos casarões. Ela volta, mas para ficar do outro lado da rua, no Hospital Santa Catarina. O ciclo se encerra.

Escrevi esse texto em agosto de 2010, ano em que minha mãe faleceu, e resolvi publicá-lo em maio, o mês em que a mulher, em suas várias faces, é homenageada: como noiva, mulher, mãe. São facetas que celebram o cuidar, um dos atributos do feminino. 

Deixo, assim, uma homenagem à minha mãe, à moça tão simples e tão humana do xampu anticaspa e a todas as outras que cuidaram dessa professora zelosa do Rodrigues Alves. Muita gratidão!

Marta Gil

Marta Gil é consultora na área de inclusão de pessoas com deficiência; socióloga; coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas; pesquisadora; colunista da revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais; membro do conselho curador do Instituto Rodrigo Mendes. Autora do livro Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP (Editora SENAI, 2012); responsável pelo desenvolvimento da metodologia SESI/SENAI de gestão e qualificação profissional para inclusão de pessoas com deficiência. Organizou livros e publicações sobre inclusão, educação e educação profissional; tem artigos publicados; é conteudista de vídeos e de cursos de educação à distância (EAD); participa de eventos no Brasil e no exterior como palestrante.

 
 
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