edição nº 12 ano 2017
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As fror de São Juão

Junho já chegou, trazendo um quê de alegria ingênua e nostalgia, lembrando quadrilha, quentão, milho, pinhão, música junina, roupa de caipirinha, bandeirolas coloridas, fogos e até quermesses na praça da igreja, bem conhecidas de quem é do interior.


E os santos padroeiros das festas, então? Quem é que não gosta de Santo Antônio, o casamenteiro, de São João menino que perdeu seu carneirinho, e de São Pedro, que tem a chave da porta do céu e regula as chuvas, que, aliás, andam tão escassas aqui no Sudeste...


Para mim, são as flores-de-são-joão que anunciam a chegada desta época. Fico à espreita dos primeiros botões verdes, do tamanho de uma cabeça de alfinete.


Também conhecida por cipó-de-são-joão, essa trepadeira é da família das bignociáceas e, além de alegrar os olhos e o coração, tem propriedades medicinais.


Ela me encanta com suas flores que lembram as labaredas das fogueiras: o tom amarelo, ainda em botão, vai se tornando, pouco a pouco, laranja bem forte.


Com o passar do tempo, o caule engrossa e fica lenhoso, mas não perde a flexibilidade. Os ramos se espalham, sem nenhuma cerimônia: apoiam-se onde dá. Formam verdadeiras redes verdes, enfeitadas pelos cachos de flores e pela vida miúda de insetos. O mel alimenta os beija-flores e as abelhas. A flor-de-são-joão é vistosa e exuberante: não economiza cor nem beleza: vai tecendo sua rede sobre as cercas, os muros, os telhados e as árvores, pelo Brasil afora, em cidades e estradas, em lugares áridos ou férteis – versatilidade e adaptabilidade são seus atributos.


Essa flor era a favorita de meu avô Augusto Esteves, artista plástico e exímio desenhista. Nascido no interior, veio trabalhar na cidade grande, onde se estabeleceu, casou e criou família. Nutria suas raízes com paisagens feitas a bico de pena e com poemas, escritos no estilo caipira e assinados com seu pseudônimo, Mané Coivara, como este dedicado à sua irmã Ismênia:


As fror de São Juão

É como fogo em penacho

Grudado num cipó.

Dá bastante... purção:

Uma penca em cada nó.

É só chega o friu

Aparece os botão,

Nuns cacho bem grandão

Que abre e frorece

Nos tempo de festejá

Santantonho, São Juão.

Nem marela, nem vermêia:

É a mistura das duas.

De nenhuma tem a sobra...

Cor de miolo de abóbra,

tão lindo de se vê

e alegre como quê...

(...)


Marta Gil

Marta Gil é consultora na área de inclusão de pessoas com deficiência; socióloga; coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas; pesquisadora; colunista da revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais; membro do conselho curador do Instituto Rodrigo Mendes. Autora do livro Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP (Editora SENAI, 2012); responsável pelo desenvolvimento da metodologia SESI/SENAI de gestão e qualificação profissional para inclusão de pessoas com deficiência. Organizou livros e publicações sobre inclusão, educação e educação profissional; tem artigos publicados; é conteudista de vídeos e de cursos de educação à distância (EAD); participa de eventos no Brasil e no exterior como palestrante.

 
 
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