edição nº 12 ano 2017
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O equilibrista

O equilibrista chegou a minha vida de surpresa, como quem não quer nada... bem do jeitinho dele.


Foi há muitos anos. Eu estava na casa de uns amigos cuja filha era pequena. A sala estava decorada no estilo “tenho um filho pequeno”, com livros e brinquedos em todos os cantos, principalmente nos mais inusitados. E foi num desses cantos que o equilibrista me conquistou: meio duende, meio saltimbanco, movimentos elegantes e leves – como convém a quem leva a vida sobre um fio.


Eu estava atravessando um desses momentos de dúvida que todos conhecemos. Conhecê-lo e saber que eu não era a única a caminhar sobre um fio me tranquilizou. Era uma vez...


Era uma vez um equilibrista. Vivia em cima de um fio, sobre um abismo. Tinha nascido numa casa construída sobre o fio. E já tinha nascido avisado de que a casa podia desmoronar a qualquer momento. Mas logo percebeu que não havia nenhum outro lugar para ele morar. O equilibrista ainda era bem jovem quando descobriu que ele mesmo é que tinha de ir inventando o que acontecia com o fio. “Meu Deus! Que responsabilidade!” Se queria ter uma festa, tinha que fabricar a festa com o fio. “Não há nenhuma festa pronta para as pessoas ali na esquina.” “Não?! Então, vou fazer uma.” “CONVITE PARA MINHA FESTA: Eu que fiz.” 1


E, quando suas invencionices davam certo, ele ficava feliz. E lá ia ele, fio afora, fazendo o melhor que podia. Afinal, era a sua vida que estava por um fio!


O fio o conduzia a outros, parecidos com ele – que encontro bom! Os desequilibristas, porém, o desprezavam; no mínimo, achavam que era louco. Ele respondia que não podia fazer nada: tinha nascido assim...


Às vezes, ele invejava os que tinham os pés no chão: parecia seguro e confortável ser “normal”, ter casa, emprego fixo, sem sustos ou imprevistos. Mas, quando pensava assim, imediatamente perdia o equilíbrio. Precisava, então, lembrar-se de sua essência.

 

Assim foi chegando ao fim do fio. Antes de despedir-se, disse:


“Respeitáveis outras pessoas! Esta vida de equilibrista é perigosa, mas muito interessante. Por mim, fiz o que podia e achei que valeu a pena. Adeus!” 1


O Equilibrista e o Sonhador fazem parte do meu mundo; como diz Milton Nascimento, na música Bola de gude, bola de meia, eles moram “no meu coração”, e, “toda vez que o adulto balança, eles vêm pra me dar a mão”.

 

 

1O equilbrista, de Fernanda Lopes de Almeida e Fernando de Castro Lopes. São Paulo, ed. Ática.

Assista ao livro: https://www.youtube.com/watch?v=qsxskA1KPoY

Marta Gil

Marta Gil é consultora na área de inclusão de pessoas com deficiência; socióloga; coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas; pesquisadora; colunista da revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais; membro do conselho curador do Instituto Rodrigo Mendes. Autora do livro Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP (Editora SENAI, 2012); responsável pelo desenvolvimento da metodologia SESI/SENAI de gestão e qualificação profissional para inclusão de pessoas com deficiência. Organizou livros e publicações sobre inclusão, educação e educação profissional; tem artigos publicados; é conteudista de vídeos e de cursos de educação à distância (EAD); participa de eventos no Brasil e no exterior como palestrante.

 
 
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