edição nº 12 ano 2017
outros títulos do autor
Calorias e Preconceitos
Cabelos brancos: meu mais recente Bojador
Pode trazer um xampu anticaspa?
As fror de São Juão
O Sonhador
O equilibrista
Proteção espiritual
Complexo de vira-lata? Na área da Educação Inclusiva, não!
     
 
veja também
Carta aos filhos
Liberdade, que bicho é esse?
Máxima solariana nº11
O poder dos limites

Trabalho na área de pessoas com deficiência há muito tempo. Mas antes mesmo de trabalhar com este tema, eu o vivi. Explico: nasci em uma família com várias pessoas com deficiência, portanto, posso considerar que praticamente nasci dentro do tema de meu trabalho, com o privilégio de ter recebido exemplos maravilhosos que me inspiram até hoje.


Formei-me em Ciências Sociais, na Universidade de São Paulo (USP). Durante a faculdade, fazia estágios, como todos os meus colegas e, quando não estagiava, dava aulas de inglês e fazia traduções, aproveitando o conhecimento que tinha adquirido durante um ano de intercâmbio nos Estados Unidos.


Um de meus alunos, um senhor cego, trabalhava com a colocação de cegos na indústria, no SENAI-SP. Era um visionário e, talvez como corolário desta condição, era persistente. Demorei um pouco a entender que estes traços de personalidade são qualidades inigualáveis.


Ele insistiu muito para que eu fizesse uma pesquisa sociológica sobre pessoas com deficiência visual. Resisti até onde pude. Ao me render, fiz uma pesquisa bibliográfica, que foi rápida: não havia quase nenhum material a ser estudado – no máximo, algumas pesquisas sobre a alta incidência de tracoma, ou de doença semelhante, em alguma aldeia remota de um país da África, coisas do gênero. Eram estudos oftalmológicos e pouco ou nada diziam das pessoas. 


À minha pesquisa o Projeto Rondon deu a infraestrutura necessária e os alunos bolsistas; já meu trabalho era voluntário.

Recém-formada, desenhei o projeto, coordenei as equipes de estudantes e analisei os resultados: pouco mais de 6.000 questionários que retratavam a condição de vida de pessoas com deficiência visual moradoras dos municípios mais carentes de nove estados brasileiros, em situações absolutamente precárias.


A isca preparada pelo Prof. Geraldo Sandoval de Andrade funcionou: depois de alguns anos, a partir de 1990, comecei a trabalhar na área em questão, agora como bolsista de uma organização americana sediada no Brasil e em parceria com a USP. Até hoje sou grata a ele, à minha família e à USP – foi assim que comecei a atuar profissionalmente neste campo.


O tema da deficiência nos remete a muitas reflexões e, talvez os limites sejam a primeira delas. Nós os identificamos imediatamente: a pessoa não ouve, não enxerga, não anda, não tem braço ou perna, o cognitivo é limitado ou a fala...

Ela é definida pelo limite. E esse limite fica tão grande, é tão poderoso perante nosso olhar que não enxergamos mais nada. Só a ele. Só vemos o que falta, só o que essa pessoa não tem. Até esquecemos que diante de nós está uma pessoa.


Logo que entrei na USP para implantar a REINTEGRA, Rede de Informações Integradas sobre Deficiências (1990), provavelmente o primeiro projeto com este tema no Brasil, um livro chamou minha atenção, a começar pelo título: O Poder dos Limites – harmonias e proporções na Natureza, Arte & Arquitetura. Como assim: limites, harmonias e proporções? Tudo junto? Comecei a viajar desde o título, que prometia desvendar horizontes e abrir janelas sequer imaginadas... Nada mais encantador para uma aquariana como eu!


Comprei-o na hora. O prefácio, assinado pelo autor, Giörgy Doczi, diz:


Esse livro busca alguns dos processos básicos da formação de padrões que, operando dentro de limites restritos, criam variedades ilimitadas de formas e harmonias. É uma aventura interdisciplinar na terra-de-ninguém fronteiriça à ciência, à arte, à filosofia e à religião. Uma área que foi desprezada nos últimos anos por ser formada de algo intangível. Essa área, porém, merece investigação, pois as forças que tecem nossas vidas e forjam nossos valores têm aí sua matriz.


Cada uma dessas palavras calava fundo em meu coração e trazia a sensação da descoberta de algo conhecido: “É isso mesmo o que penso, só não sabia exprimir”. O restrito contém a variedade em si; o limitado tem harmonia. Descobertas, ou, parafraseando Paula Pfeiffer Moreira: epifanias!


Doczi continua:


[As proporções] da Natureza constituem limitações partilhadas que criam relações harmoniosas baseadas nas diferenças. Assim, elas nos mostram que as limitações não são apenas restritivas, mas também criativas. (...) Há mistérios e belezas escondidos nos padrões e proporções desse mundo.


E conclui o livro com estas palavras:


Quando compartilhamos nossas limitações com as dos outros (...), complementamos nossas falhas e as dos outros, o que nos possibilita criar assim uma harmonia viva na arte da vida, comparável às harmonias criadas na música, na dança, no mármore, na madeira e na argila. É possível viver dessa maneira porque as proporções do compartilhar recíproco, as proporções de ouro da Natureza, estão integradas em nossa própria natureza, em nosso corpo e mente, pois eles também fazem parte dessa Natureza. 


Neste livro, achei as respostas ao meu trabalho e a uma pergunta que as pessoas frequentemente me fazem: “Mas por que você está nesta área, trabalhando com este tema?”. Geralmente, apresento razões ancoradas nesta fonte de sabedoria. 


Esta clareza nasceu em mim só depois dos primeiros passos: como Guimarães Rosa diria: O real se apresenta para a gente é no meio da caminhada.


É a busca das relações harmoniosas nas diferenças o que norteia meu trabalho, a busca dos mistérios e das belezas subjacentes que as diferenças escondem. Cada vez que procuro, estão lá, me alimentando, me ensinando e me estimulando a prosseguir.


 

Referência:

DOCZI, Giörgy. O Poder dos Limites – harmonias e proporções na natureza, arte e arquitetura. São Paulo: Publicações Mercuryo Novo Tempo, 2012.

Observação:

Os negritos nas citações são meus.

 


Marta Gil

Marta Gil é consultora na área de inclusão de pessoas com deficiência; socióloga; coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas; pesquisadora; colunista da revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais; membro do conselho curador do Instituto Rodrigo Mendes. Autora do livro Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP (Editora SENAI, 2012); responsável pelo desenvolvimento da metodologia SESI/SENAI de gestão e qualificação profissional para inclusão de pessoas com deficiência. Organizou livros e publicações sobre inclusão, educação e educação profissional; tem artigos publicados; é conteudista de vídeos e de cursos de educação à distância (EAD); participa de eventos no Brasil e no exterior como palestrante.

 
 
Imprimir