edição nº 12 ano 2017
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Complexo de vira-lata? Na área da Educação Inclusiva, não!

Nelson Rodrigues, escritor, dramaturgo e torcedor fanático de futebol, cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para se referir “(...) à inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um Narciso às avessas”. Esta expressão, que se referia inicialmente à terrível sensação vivida no fim da Copa Mundial de Futebol de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai, se aplica também a outras situações da vida.

 

Estamos sempre nos comparando com outros países, especialmente com os do chamado Primeiro Mundo. Os jornalistas fazem sempre as mesmas perguntas aos entrevistados, seja qual for o tema: condições sanitárias, educação, transportes. E, no fundo, meio que antecipamos a resposta da autoridade entrevistada: "estamos mal, muito mal mesmo e temos muito a aprender com os países adiantados", sem levarmos em conta as condições históricas, o processo de desenvolvimento, o tamanho dos países, e outros fatores. De antemão nos encolhemos e, para continuar a metáfora, colocamos o “rabo entre as pernas”. 

 

Em fevereiro deste ano me dei conta de que também tenho este “complexo”. Vou contar como descobri.

 

Fui assistir ao mais recente evento do Zero Project, que aconteceu em Viena, na Áustria.

 

Vou dar alguns números sobre a Conferência de 2016: 516 participantes, vindos de 70 países; apresentação de 98 práticas inovadoras, em 35 sessões plenárias, durante 3 dias; a Conferência também pôde ser acompanhada, em tempo real, por um link acessível. Os temas abordados incluíram intervenção precoce, educação nos níveis primário, secundário e superior, educação profissionalizante, educação não formal, materiais pedagógicos acessíveis, educação inclusiva em situações de emergência, entre outros.

 

Resumindo: participei de um evento riquíssimo que escancarou minha visão de mundo e minhas concepções.

 

Bem, e o que têm a ver o Zero Project, a Conferência de 2016 e o complexo de vira-lata?

 

Pra mim, tudo: as apresentações falavam de problemas semelhantes aos que enfrentamos aqui, ressalvadas as características locais, claro. Mas a essência das questões abordadas era a mesma, independentemente do país. Fiquei surpresa: não era isso que eu esperava ouvir, principalmente de profissionais e ativistas do chamado Primeiro Mundo.

 

Foi aí que me dei conta do meu “complexo de vira-lata”: o que eu esperava, sem ter consciência, era ouvir relatos de maravilhas, e já me imaginava um Marco Polo, contando avanços extraordinários em minha volta. Queria aprender com eles e ver como adaptar os “avanços” a terras tupiniquins.

 

Contrariando minha expectativa involuntária, me dei conta de que nós, que lutamos por uma Educação Inclusiva, enfrentamos situações e problemas semelhantes, pelo menos uma das raízes é inerente à natureza humana: o preconceito. Além de muito, muito resistente, o preconceito está presente tanto nos países adiantados quanto naqueles em desenvolvimento. Pode variar conforme o país, porque foi enfrentado com ferramentas e estratégias eficientes, pode recuar e assumir disfarces – mas está presente, de um jeito ou de outro.

 

Esta constatação pode parecer ingênua, até simplória. Afinal, estou há tantos anos nessa área...

 

É verdade, trabalho há muitos anos, inicialmente com a integração e depois com a inclusão, fazendo pesquisas, consultorias, vídeos, livros, palestras. Mas nunca tinha participado de um evento com 70 países!

 

Enquanto assistia atentamente às exposições, cenas passavam pela minha mente: iniciativas, do Oiapoque ao Chuí, de escolas públicas e privadas, de creches a universidades: algumas com recursos (em todos os sentidos do termo) mais generosos, outras improvisando com sucata, com acompanhamento de consultores renomados ou entrando de cabeça, “com a cara e a coragem”; depoimentos de professores sobre estratégias de ensino, sobre desenvolvimento de metodologias e de material didático, sobre sua vontade de fazer o melhor, de aprender no contato direto com o aluno com deficiência, buscando conhecimentos que deem conta das lacunas de sua formação...

 

O “filme” a que eu assistia mentalmente começou a ser “rodado” em 1990, quando comecei a REINTEGRA – Rede de Informações Integradas sobre Deficiência, uma parceria da Universidade de São Paulo com o Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas que cresceu e deu origem à Rede SACI/USP. Continuo acompanhando cenas deste “filme”, nas redes sociais, nos eventos de que participo, nas publicações e nas ações voltadas para a Inclusão.

 

Confesso que senti orgulho dos educadores brasileiros ao evocar estas cenas: esse caminho foi construído com empenho, competência, criatividade, suor e teimosia. Muitas dessas ações fariam bonito se fossem ali apresentadas, em Viena.

 

Não me entendam mal: não estou menosprezando nem anulando as conquistas de outros países. Elas existem, são reais e devem nos inspirar: temos a aprender com eles.

 

Também não estou exaltando as conquistas brasileiras e dizendo que somos “os reis da cocada” – não, não somos.

 

Temos realizações e conquistas que merecem ser conhecidas, divulgadas, analisadas e aperfeiçoadas. Em minha opinião, elas ainda são pontuais, como luzinhas isoladas – por isso, usamos o termo “experiências”. Há iniciativas de professores e de escolas, da rede pública e privada; foram desenvolvidos softwares, metodologias, estratégias de ensino; há livros e artigos; há produção acadêmica. Mas ainda são pouco conhecidos: vale a pena pesquisar em todas as áreas: há materiais criados para alunos com deficiência visual que podem ser utilizados por crianças com outros tipos de deficiência e também por quem não tem deficiência.

 

Temos uma legislação de qualidade, mas ela precisa ser conhecida e colocada em prática.

 

É preciso aproximar famílias e escolas, pois são aliados, cada um em sua esfera.

 

Sim, ainda temos muito a fazer para fortalecer e ampliar a Educação Inclusiva. Só que é importante reconhecer o que foi feito e celebrar, para ganhar fôlego e prosseguir. Há um caminho longo e desafiador à nossa frente. 

 

Saí do evento com uma visão ampliada e mais equilibrada: o tal “complexo de vira-lata” praticamente desapareceu – que alívio!

 

Constato que estamos caminhando na direção da Educação Inclusiva e temos muito a aprender uns com os outros – em escala mundial. Como diziam os antigos: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

 

Parabéns aos educadores, alunos, familiares anônimos que estão construindo a Educação inclusiva, no Brasil e nos demais países! Estamos juntos.

 

 


SERVIÇO

Zero Project é uma  iniciativa da Fundação Essl. Seu objetivo é “contribuir para um mundo com zero barreiras”. Para tanto, pesquisa e divulga ações e políticas que contribuem para a melhoria do cotidiano e para o exercício dos direitos legais de todas as pessoas com deficiência (tradução livre).

Esse evento acontece anualmente em Viena, abordando temas baseados na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiências (CDPD); o deste ano foi “Educação Inclusiva e Tecnologias de Informação e Comunicação”. Em 2017 o tema será Trabalho.

Os relatórios dos temas discutidos anteriormente estão disponíveis somente em inglês e alemão.


 

 


DESTAQUE

Fomos bem representados nesse evento: o Brasil foi o único país da América do Sul a ser duplamente premiado, na categoria "Políticas Inovadoras", pelos 14 anos da formação de uma rede pública de educação inclusiva;  na categoria "Práticas Inovadoras" o destaque foi para a WVA Editora, que há 22 anos vem publicando livros em formatos acessíveis. Rodrigo Mendes, Diretor Executivo do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), participou das discussões da Conferência, como parte do júri.


 

 

 

 

 

 

Marta Gil

Marta Gil é consultora na área de inclusão de pessoas com deficiência; socióloga; coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas; pesquisadora; colunista da revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais; membro do conselho curador do Instituto Rodrigo Mendes. Autora do livro Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP (Editora SENAI, 2012); responsável pelo desenvolvimento da metodologia SESI/SENAI de gestão e qualificação profissional para inclusão de pessoas com deficiência. Organizou livros e publicações sobre inclusão, educação e educação profissional; tem artigos publicados; é conteudista de vídeos e de cursos de educação à distância (EAD); participa de eventos no Brasil e no exterior como palestrante.

 
 
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