edição nº 12 ano 2017
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Liberdade, que bicho é esse?

No último domingo, dia 26 de novembro de 2017, participei de um evento no Instituto Solaris intitulado Meditação da Liberdade. Aliás, nos dois últimos anos venho participando com certa frequência das meditações que ocorrem semanalmente aos domingos, todas elaboradas com objetivos específicos, intencionando ajudar os participantes a tomarem ciência da própria realidade interior, fortalecendo potencialidades desconhecidas ou ocultadas pela realidade cotidiana. Independentemente dos resultados alcançados nesse processo, chamou-me especial atenção a meditação de domingo, não somente por ser a última do ano, mas também pelo tema em questão – Liberdade. 


Consultando um dicionário de português on-line, verifiquei uma série de significados possíveis para o termo, como, por exemplo: caraterística da pessoa que não se submete, falta de dependência, independência; alternativa que uma pessoa possui para se expressar da maneira como bem entende, seguindo a sua consciência; aptidão particular e autônoma de o indivíduo de escolher, expressando os distintos aspectos da sua essência ou de sua natureza.

 

Refletindo sobre o tema, comecei a questionar meu entendimento de liberdade, em que momentos me sentia livre e se era possível ser livre vivendo na nossa sociedade, que nos submete a situações, muitas vezes, completamente alheias a nossa vontade. 

 

Em uma conversa descompromissada com minha filha, hoje com dezessete anos, perguntei o que ela entendia, ou melhor, o que significava ser livre para ela. Ela não se fez de rogada, rapidamente proclamou que liberdade era fazer o que se quer sem se preocupar em atender aos outros, em atender modelos que não correspondem ao que você realmente é.

 

Do meu lado, comecei a questionar sobre como perceber se o que escolhemos fazer corresponde a nossos desejos singulares e se sintonizam com as aspirações da nossa alma, porque, de certa maneira, sentia que isso fazia parte do exercício da liberdade.

 

Acredito que captar as nuances que perpassam uma atitude libertadora requer mais do que a simples realização de desejos muito atrelados, na realidade atual, com a concretização da aquisição de bens materiais, do sucesso profissional e da apropriação de bens mais do que necessários à garantia da subsistência.

 

Muitas pessoas associam a liberdade à possibilidade de fazer tudo aquilo que se deseja, de não ter que dar “satisfação” a ninguém sobre as próprias atitudes e escolhas, de poder ir e vir sem maiores limitações e, acima de tudo, de gozar de total autonomia sobre a própria existência. Aliás, essa tem sido uma das motivações preferidas para justificar o rompimento de relações nos mais diferentes níveis, além da crescente falta de compromisso com os sentimentos alheios e com as fragilidades que perpassam qualquer forma de existência.

 

Libertar-se tornou-se sinônimo de descompromisso com o que é do outro, atendendo somente as necessidades que nos apetece e nos faz feliz. A máxima proferida e propagada pelo meio midiático é: seja feliz a qualquer preço, o que importa é você, a sua felicidade e realização, sempre. Priorize os seus sentimentos e as suas vontades, isso sim é viver, de maneira assertiva, a própria liberdade.

 

Acredito, no entanto, que tudo isso reflete questões muito mais íntimas, revelando a fragilidade humana caracterizada pela dificuldade de se deparar com os obstáculos que impedem a tomada de consciência sobre a própria existência.

 

Entretanto, diferentemente do que se possa imaginar, essa tomada de consciência não é algo que faça parte da essência humana como coisa dada, vigente no mundo das ideias vislumbrado por Platão. Na verdade, constitui um processo de construção que se desenvolve ao longo de toda uma vida, resultado do amadurecimento e da persistente jornada empreendida em busca do conhecimento de si e de limitações ímpares.

 

Nesse sentido, a Liberdade requer, a meu ver, essa busca interior materializada pela célebre afirmação socrática, conhece-te a ti mesmo, eis aí a chave de toda a libertação, porque é nessa busca que percebemos o quanto estamos implicados no nosso processo de desenvolvimento individual e o quanto isso nos torna responsáveis por nossas escolhas e pelas consequências advindas delas.

 

No Solaris encontramos o ambiente e o espaço preparados para possibilitar o embate, o confronto e o encontro com as diversas peculiaridades que constituem a nossa forma de ser e de significar a singular existência.

 

As meditações funcionam como o instrumento viabilizador desse processo, aliando práticas, mantras, acolhimento e compromisso com o desejo de autoconhecimento.

 

No meu ponto de vista, além disso, tem me possibilitado refletir e, por que não , provocar interlocuções sobre os temas abordados.

 

Terminados os encontros semanais, é chegada a hora de ponderar como pretendemos continuar exercendo a nossa liberdade e o que faremos para nos conectarmos com aquilo que propicia o exercício dessa liberdade, cientes de que esse processo requer compromisso, respeito e esforço a favor do conhecimento de si.

 

Esse, talvez, seja o verdadeiro sentido da liberdade.




São Paulo, 27 de novembro de 2017.


Natatcha Priscilla Romão

Aluna do curso Caminho Evolutivo no século XXI – 2012, frequenta o Solaris desde 2010. Graduada em Psicologia, mestre em Psicologia e doutoranda do programa de pós-graduação em Educação pela Universidade Nove de Julho – SP.  

 
 
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