edição nº 10 ano 2018
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Aceita/ação: solução do problema da evolução

Ao observar as situações nas quais as pessoas se encontram, o próprio contexto social em que hoje vivemos no Brasil – de violência, de insegurança, de discriminação, de interesses mesquinhos, de acúmulo de leis não observadas –, somos levados a questionar: qual é o verdadeiro problema?


Por que tanta doença de pele, de coração, de ossos? Imunidade, circulação e estrutura, palavras inerentes ao corpo físico e à psique humana. E que geram um sistema de coisas não resolvidas, por falta de enfrentamento ou por completa abnegação


Abnegação é a resposta para a não aceitação de uma situação, crônica ou simples, que escolhemos não enfrentar e de que não saímos mesmo quando adversa. No dicionário o termo vem como “desinteresse”, “renúncia”, “desprendimento” e  “devotamento a uma pessoa, causa ou ideia”. 


Aceitação deriva do verbo “aceitar” (do latim: acceptare) e pode significar: “receber”, “consentir”, “aprovar”, “concordar”, “admitir”, “reconhecer”, “tomar” – ato ou efeito de aceitar (aprovação). Se a palavra soa com profundeza da alma, é emocional; se como uma derivação (acordo, contrato, casamento), intelectual. É da aceitação emocional que vamos falar. Ela se refere à primeira conduta quando diante do imprevisto: situação ou  fato.

 

Quando crianças, aprendemos que devemos ouvir mais e falar menos. Alguns pais ensinam seus filhos a aprenderem bem as coisas e, somente depois de bem entendido tal e qual ensinamento, devem emitir uma opinião a respeito. E disso vêm a resignação e a verdadeira aceitação de uma situação ou fato. 


Resignação vem do verbo “resignar-se” (reflexivo), “renunciar”. Você produz um ato ou um efeito de renúncia espontânea de uma graça ou de um cargo. Na presente exposição, trata-se de submissão do paciente aos sofrimentos da vida (Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa).

Você aceita a sua realidade e se conforma com ela, mesmo sendo contrária ao que você quer. O resignado sofre e não lamenta sua sorte.


Acontece que, quando crescemos, adquirimos vaidades (EGO) e passamos a comparar tudo com os nossos conceitos e regras adquiridos, e, no desejo de evidenciarmos o nosso pensamento, nos colocamos em situações irreais, nas quais a nossa opinião não é adequada para o momento (situação) ou para o fato.


Os problemas que nossa tão maravilhosa opinião produz podem causar doenças autoimunes (alergias e até cânceres), problemas coronários (AVC, derrame, pressão alta), quedas e desgastes ósseos. Isto quando o problema fica no nível do corpo físico...


E quando é psicológico? A fisiologia humana é complicada. Principalmente no plano mental. Ficamos por muito tempo com uma situação, na qual alguém nos falou algo de que não gostamos. O que foi dito encrava no cérebro e causa reação.


Alguns falam que tudo não passa de falta de consciência da realidade objetiva. Se aceitássemos o que nos acontece, haveria um clareamento do nosso mental e teríamos melhor controle da situação.


A aceitação dos atos tem relação com a forma de se ver a Realidade. E deve, então, ser compreendida como encarar a realidade dos fatos/situações tal como eles acontecem e são impostos pela condição da vida humana. 


Como podemos notar, a aceitação vem primeiro e só depois a consciência. Será? Eu posso enxergar a situação, eu posso ver que estou errado, que eu falo muito, que falei algo indevido, impróprio para o momento, posso ver que causei grandes danos, mas quem disse que eu aceito isso? Ou seja, tenho consciência daquilo que fiz ou disse, mas não o aceito como motivo da degradação da relação, da discussão. Não me considero fora da Realidade Objetiva. Chego a ponto de narrar a situação ou o fato perfeitamente. 


Há uma diferença sutil entre a consciência e a aceitação de uma situação ou de um fato. É o limite onde uma se contrapõe à outra. O certo é aceitar a situação ou o fato com consciência do que fizemos ou estamos fazendo nela.


Esse limite está na forma de aceitar os arquétipos da situação ou do fato. 


Uma situação tem seus atores. E quem disse que somos sempre os principais? Às vezes somos coadjuvantes. E por que deixamos que essa situação nos afete? Falta de aceitação da condição secundária imposta pela situação ou fato. E, às vezes, tomamos as dores de outra pessoa – filhos, maridos, amigos, familiares, conhecidos. Assumimos os problemas, ou será que os criamos? Há alguma novidade nisso?


Não. Não devemos ser o outro ou fazer o papel do outro. É isso que se aprende na Teoria da Abrangência, de autoria de Sofia Mountian, ou seja, é preciso saber o que você é e o que pode fazer para ser melhor e evoluir. Se quer ficar em determinada situação, também pode, mas aí  já não se trata de abnegação, resignação ou resiliência, mas de uma escolha, sua e de mais ninguém.


A Teoria da Abrangência ensina que existe um limite entre aceitação e consciência. Assim, há aceitação do local e aceitação do que estou fazendo nesse local – o que está acontecendo? Tenho que aceitar que algo acontece e avaliar meu interesse, pois nem tudo o que é ruim se torna danoso, nem tudo o que é bom se torna positivo. 


Por que fato e situação? Não são a mesma coisa? Bom, se fossem a mesma coisa, não haveria duas palavras; às vezes são sinônimos, mas não iguais. E o mesmo pode ser dito quanto à aceitação e à consciência. Como já foi mostrado.


Fato é algo já constatado, coisa ou ação feita, sucesso, caso, acontecimento, aquilo que realmente existe, que é real (Dicionário Aurélio), e situação é algo que situa, desde o início, você numa ocorrência, o modo como alguma coisa ou pessoa está situada em relação a determinado ambiente (o Dicionário traz outros nove usos da palavra).


A situação está ao nosso alcance. Podemos mudá-la. O fato só tem um jeito: a aceitação da besteira feita e a necessidade de uma reparação.


Por isso a aceitação é tão importante. A consciência vem em seguida, depois da aceitação.


A aceitação se encontra em tudo o que fazemos, consciente e inconscientemente, tácita ou concretamente. Podemos inconscientemente aceitar algo, mesmo que depois se fale: mas eu não aceitei isso? 


Abnegação é a aceitação consciente de uma situação ruim mas, confortável, ao contrário da resiliência, que é a aceitação da situação ruim, porém com tomada de decisão de mudar, de encontrar uma solução.


A aceitação dá o nível de consciência. Ela é necessária para dar um salto na evolução. Ela dá clareza, certeza, tudo fica em paz. Tudo fica mais fácil, física e mentalmente. Somos os que podem ser e fazer, não temos limites, essa é a primeira aceitação.

Você aceita, essa condição vem da própria aceitação?


Aceito a ação. A situação e o fato do jeito que foram e que são.


Olga Maria Rosner

Advogada, agente da fiscalização do TCE/SP, assessora do CARC, mãe de três filhos, divorciada, membro da ONG/Instituto Solaris há 22 anos. 

 
 
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