edição nº 10 ano 2018
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Empatia

Fala-se muito hoje em dia sobre a empatia, que, segundo um dicionário informal online, significa: “a capacidade de compreender o sentimento ou reação da outra pessoa imaginando-se nas mesmas circunstâncias; faculdade de compreender emocionalmente outra pessoa”.1


É comum esse termo aparecer em um contexto no qual se enfatiza a importância de sermos empáticos, de aplicarmos a empatia nas diferentes situações do nosso dia a dia, com conhecidos ou estranhos, em casa ou no trabalho, com adultos ou crianças.


O que me intriga é que as pessoas falam sobre a empatia como se fosse algo natural, algum dom que todos nós adquirimos desde o nascimento e pode ser acionado sempre e quando quisermos. 


Será? É isso mesmo? Tão simples quanto um botão de liga/desliga?


Bom, para mim não é natural, francamente, dependendo da situação não sei nem onde está o danado do botão de liga/desliga. Isso me causa muita angústia, muito questionamento interno. Onde é que estou errando? Será que só eu sou assim? Será que tem cura? 


E aí a vida vem cheia de vontade para nos dar uma daquelas lições ...


Minha sogra teve um AVC há dois meses, nunca tivemos uma relação muito próxima. Nos dávamos bem, mas era uma relação cortês, sem vínculos afetivos profundos. Passado o susto inicial da notícia do AVC e suas implicações, vieram as situações em que a empatia deveria entrar e tomar conta, mas o processo não é tão simples. 


A situação é grave, ela passou de uma mulher autônoma e independente para uma pessoa completamente dependente, descobrimos que temos – meu marido e eu - pela frente um enorme desafio, nossa vida passará por uma fase difícil, nosso foco sai da nossa casa e dos nossos planos e passa para os cuidados com ela. No meio de toda a correria, ouvimos do médico dela que esta situação teve o seu “gatilho” na escolha consciente da minha sogra de parar de tomar o anticoagulante. O que fazer com os sentimentos de julgamento, de raiva, de impotência, medo, frustração? Uma voz dentro de mim grita: “Cadê a empatia?”. 


Daí vieram as noites no hospital, a alimentação na boca diante de seu olhar de constrangimento, o acompanhamento de trocadas de fraldas e higiene em geral, perceber o seu pudor diante das situações de nudez, e outras tantas situações que nos colocam, a mim e a ela, juntas em total desconforto. Ela sem a opção de dizer não e eu também.


Aos poucos, dia após dia, percebo que, atrás daqueles grandes olhos azuis cheios de tanta opinião, de uma franqueza muitas vezes desprovida de empatia, percebo uma mulher que nunca se imaginou naquela situação. Uma mulher que encarou o mundo 40 anos atrás, bancando uma gravidez solteira, que lutou para dar tudo de melhor para seu filho, que fez valer a sua opinião e suas crenças, mesmo à custa de algumas relações familiares, que fez isso por ser fiel a seus valores e a seu modo de ver a vida. Mudou algo do meu olhar, não sei se posso chamar isso de empatia, não posso afirmar que consigo me colocar no lugar dela, que entendo as decisões que tomou ao longo da vida. 


Mas, nesses últimos dois meses (o AVC foi em 8 de julho) aprendi algo fundamentalmente mais importante para mim, percebi que a empatia precisa começar por mim mesma. Não é justo me cobrar um sentimento que não está lá. Eu posso e devo respeitar as opiniões e as decisões alheias, decisões que ela tomou considerando o melhor que tinha de conhecimento e de informação naquele momento, como todos nós fazemos em algum momento da vida. Não cabe a mim julgar. Que tudo bem não morrer de amores por todo mundo ao meu redor, eu posso e devo estar atenta ao espaço e às preferências alheias.  


Que minhas ações que zelam pelo bem-estar da minha sogra não são inválidas porque não sinto a mesma coisa que sentia pela minha avó, por exemplo. Que o fato de conseguir sentir menos “calor” me ajuda a tomar decisões que para meu marido, na posição de filho, são muito mais difíceis, e isso pode ser essencial em algumas situações da nossa vida. 


Parte da minha empatia hoje está sendo usada em mim mesma, respeitando os meus limites, o meu coração e as conexões que decidiu criar, respeitando o meu tempo para que as coisas aconteçam, para silenciar vozes que cobram o “socialmente correto”. Ela, minha sogra, sabe que pode contar comigo, mesmo que seja para brigar e fazê-la cumprir a agenda de fisioterapia, essencial para a recuperação dela. Meu marido sabe que eu vou brigar com as cuidadoras que não a seguram da forma correta. Que não vai faltar nada para que ela se sinta segura e assistida nessa nova fase da vida dela. Ela tem os meus mais sinceros sentimentos de preocupação, dedicação e esforços. Ela e eu teremos que aceitar que este é o melhor que posso dar, neste momento. 


É a empatia em ação, empatia aplicada em mim mesma!



1https://www.dicionarioinformal.com.br/empatia/

 

Rafaela Favorito

É formada em administração e tem longa vivência profissional na área financeira. Ingressou no Solaris em 2010 buscando entender mais sobre si e sobre o mundo fora das planilhas de Excel. Com a ajuda da Sofia e de toda a egregora Solaris, encara com entusiasmo e curiosidade o potencial de autodesenvolvimento que o universo nos oferece todos os dias.

 
 
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