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PORTAL SOLARIS
Minha experiência de 10 dias no Irã

uma sociedade liderada por homens, para homens


 

Estive no Irã por 10 dias por turismo, mas muito por curiosidade, atrás de conhecimento. Esperava conhecer um pouco mais sobre uma sociedade islâmica, o modo de vida, os costumes e principalmente o papel da mulher na sociedade. Já havia estado em outros países islâmicos, mas em nenhum outro o islamismo talvez seja levado tão a sério como no Irã. E talvez seja, forçadamente, levado a sério.


O Irã é atualmente um país dominado por Aiatolás, líderes máximos de um grupo político religioso que tomou o poder em 1979. Antigamente, o país estava na mão dos Xás (a monarquia iraniana).


Perguntei para todos os guias e para todas as pessoas que cruzaram o meu caminho o que era bom antes dos Aiatolás, o que era bom na época dos Xás. Não sei se todos e todas tiveram coragem de ser totalmente sinceros com dois brasileiros curiosos. Não estávamos, meu namorado e eu, contra alguém ou contra alguma crença, só queríamos conhecer suas opiniões. Conhecer para poder criticar.


Ouvimos opiniões sobre economia, liberdade, costumes, religião. Mas meu foco aqui serão as mulheres. Não apenas o que ouvi, mas o que vivi e observei.


A sociedade iraniana atual é extremamente machista. As mulheres são tratadas literalmente como seres inferiores. Em primeiro lugar, os Aiatolás determinaram em 1979 que as mulheres são obrigadas a usar o hijab, um véu que deve cobrir os cabelos e a cabeça. Ouvi que antigamente era ainda mais duro, época em que muitas se acostumaram a cobrir o corpo inteiro com burcas. Atualmente, é “aceitável” cobrir apenas a cabeça e os cabelos. Segundo a crença islâmica, acredita-se que o hijab é “o vestuário que permite a privacidade, a modéstia e a moralidade, ou ainda o véu que separa o homem de Deus”. Na prática, significa que a mulher só deve mostrar seus cabelos para seu marido. Ela é propriedade do marido. E o Deus deles está de acordo com isso.


No meu primeiro dia de obrigatoriedade de uso do hijab, deixei cair meu véu sem querer no aeroporto de Teerã. No primeiro minuto, uma mulher oficial do governo me deu um cutucão no ombro e apontou o dedo para minha cabeça. Demorei alguns segundos para perceber que estava cometendo um crime religioso. Mas, em alguns dias, aprendi algumas formas de ter sempre um lenço preso à minha cabeça. Até nos corredores dos hotéis a prática é obrigatória. Em alguns, havia uma placa indicando a obrigatoriedade do uso do hijab. As placas geralmente eram rosas, com uma mulher usando um hijab e um poema que dizia algo como “o cheiro das rosas que está por trás do hijab é sagrado”.


Nos primeiros dias de uso do hijab me senti péssima, mas, como todas as mulheres estavam até mais vestidas e cobertas do que eu, logo me acostumei. Não foi isso que mais me incomodou em ser mulher no Irã. Foi o trato com as mulheres, não apenas comigo, mas com todas com que pude falar e que pude observar.


Por exemplo, se você está com um homem e ele é seu marido, é suposto que ele fale primeiro ou por você. As reservas dos hotéis estavam no meu nome. Quando eu me dirigia à recepção, falava meu nome e mostrava meu passaporte, logo perguntavam para o meu namorado se ele estava em outro quarto. Afinal, se ele é meu marido, como eu podia me pronunciar primeiro? O mesmo passava quando chegávamos ao café da manhã dos hotéis. A pessoa que controlava o acesso ao restaurante perguntava qual o número do quarto. Quando eu respondia, logo perguntavam para meu namorado o número do quarto dele. Difícil de compreender, não?

 

As mulheres não podem, imagine, ir para academias com os homens, existem academias exclusivas para mulheres. Nem mesmo para praias! Eu perguntei para uma moça se ela tinha um biquíni tipicamente brasileiro. Ela disse que tinha, mas que ia à “praia das mulheres”. Mesmo em uma cidade grande como Teerã (cerca de 12 milhões de habitantes), mulheres não frequentam baladas. Balada é algo para homens. Um homem brasileiro deve se questionar: “o que fazer em uma balada em um país em que a bebida alcoólica é proibida e não tem mulher?”. Pois é, difícil de entender.


Nas mesquitas, homens ficam no melhor lugar (no centro); as mulheres podem rezar, mas somente em um cantinho separado.


Os casais em geral não se beijam, não se abraçam e não andam de mãos dadas em público. Via de regra, os homens andam na frente, as mulheres ficam para trás. Quando eu e meu namorado nos abraçávamos eventualmente em público, parecíamos pessoas de outro planeta.


Além disso, mulheres casadas não saem sozinhas publicamente. Conhecemos duas mulheres recém-casadas em um bazar e elas nos contaram que estavam passeando sozinhas naquele dia pois era o “dia sem marido”. E ficavam o tempo todo olhando o relógio e dando as coordenadas de onde estavam. De verdade, pareciam prisioneiras. 


Não existe nenhuma gentileza com as mulheres. Ninguém abre a porta do carro, não deixam as mulheres passarem na frente no elevador. 


Fora isso, o machismo está em pequenos comentários e nas entrelinhas. Por exemplo, um dos nossos guias tinha um carro iraniano barato, de um modelo econômico. Meu namorado perguntou se aquele carro era comum e ele respondeu que era um bom carro para o dia a dia, barato e muitas vezes bom para mulheres, porque era o segundo carro da família. Como é mesmo? Mulher deve andar em um carro mais barato do que o do homem?


O pior de tudo: os homens iranianos não acham nada de errado em tudo isso. O hijab compulsório não incomoda, não há nada de errado em tratar mulher como algo inferior. “Afinal, é assim mesmo, o governo obriga.” Os homens têm medo de questionar, ou estão de acordo com a forma como as mulheres são tratadas? Não consegui descobrir.


Voltemos à nossa realidade brasileira. O que essa experiência de 10 dias me ensinou?

O Brasil é um país machista? Sim, ninguém tem dúvida disso. Ainda temos muito a evoluir. Ainda não temos igualdade de oportunidades, homens ainda não ajudam em casa como deveriam. 


Então, lembre-se: essa é uma luta eterna, não pode parar. Afinal, olhem para o Irã. Antes de 1979, as mulheres tinham liberdade, podiam se vestir da forma como queriam, e deram muitos passos para trás com um governo ditatorial e religioso.


Acredite: vitórias conquistadas nem sempre são para sempre! 

 

 

Flávia Albo

Sócia da HOW Consultoria, especializada em inovação e estratégia para grandes empresas. Também é cofundadora do GEF (Grupo de Empreendedorismo Feminino), orientado à capacitação de mulheres empreendedoras.