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O delírio de Assis

Foi uma passagem que li há pouco que me deixou boquiaberta. Foi o Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no capítulo perfeitamente intitulado “O delírio”. Eu li em inglês, então vou traduzir (risos). Vamos delirar: “Pelo que eu saiba, ninguém antes documentou o próprio delírio, pois vou documentar o meu, tenho certeza que a ciência me será grata e se você, leitor, não quiser contemplar esse feito, passe para o próximo capítulo, garanto aos não curiosos que direi tudo o que se passou pela minha cabeça e que será interessantíssimo (…) Comecei como um barbeiro chinês. Era barrigudo, com dedos finos, fazia a barba de um outro chinês, que me pagou em doces (…) Depois me transformei numa edição da Summa Teológica, de São Tomás de Aquino. Eu era uma edição de couro marroquim com detalhes em prata e ilustrações, o que me deixou imóvel, lembro que minhas mãos eram os prendedores do livro (…) Voltei ao normal e encontrei um hipopótamo. Montei nele e começamos a galopar, ele disse que me levaria para a Origem; comentei que ela deveria ser muito longe, mas o hipopótamo não me entendeu ou não me escutou (…) Mantive meus olhos fechados durante a viagem e, como o frio aumentava, pensei que entrávamos na era do gelo eterno. Abri os olhos, vi que galopávamos em uma planície de neve com montanhas, geleiras e animais de neve, e perguntei: — Onde estamos? — Já passamos do Éden. — Podemos parar na tenda de Abraão? — Você que voltar? (…) Vira e mexe, aparecia uma planta de folhas longas, o silêncio era como o de uma tumba (…) Não sei como esta figura imensa apareceu, se caiu do céu ou se surgiu da terra, era uma mulher que me olhou com olhos que brilhavam como o sol, tudo sobre essa figura representava a imensidão selvagem (…) — Me chamo Natureza ou Pandora; eu sou sua mãe e seu inimigo. Ao ouvir essa última palavra, paralisei de medo. (…) — Não tenha medo, você está vivo, existe tormento maior? Ela estendeu o braço e me levantou como se eu fosse uma pena, vi sua face; era imensa (…) — Natureza, você? A Natureza que eu conheço é mãe e não inimiga. E por que Pandora? — Porque carrego na bolsa todo o mal e todo o bem; carrego o maior de todos os bens, a Esperança (…) A história da Humanidade e da Terra é tão intensa que nem a imaginação nem a ciência são capazes de entender; a ciência é muito devagar e a imaginação muito vaga (…) Vi as Idades passarem, me senti tranquilo e feliz. O hipopótamo começou a encolher, encolher, encolher até ficar do tamanho de um gato. Aliás, virou um gato, o Sultão, meu gato que brincava com uma bola de papel na porta do meu quarto.”

Daniela Pompeu
Daniela Pompeu, brasileira-americana, neta, filha, sobrinha e irmã de jornalistas, mora em Los Angeles, Califórnia. Graduada em Inglês pelo Hunter College, Nova Iorque, com especialização em Literatura Medieval. Formada em Acting pelo Catherine Gaffigan Studio of Acting, Nova Iorque. Escreve um blog semanal: www.danielawrites.net . Autora dos livros "Tea with Dani", "It's with H, Sir" e "Never Let a Good Crisis Go to Waste, I Can't Stand the Bull Crap".
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