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Palavras de Rumi

Jalal-ud-Din (ou Jalaluddin) Rumi (1207-1273)1 nasceu em Waksh, região persa cuja capital era Bactros (atual Balkh) − o local hoje quase todo pertence ao Afeganistão. Com seu pai, Baha’ud-Din Walad, um mestre sufi extremamente cultuado, Rumi fugiu da invasão mongol − passou por várias cidades, como por Rum (na Turquia), região que lhe deu a alcunha, e chegou finalmente a Konya, onde se tornou de fato um grande mestre. Entre as inúmeras heranças enquanto um mestre do sufismo, fundou a ordem Mevlevi dos dervixes rodopiantes (dervixes são iniciados praticantes do sufismo).

Rumi deixou também um grande legado literário, sendo considerado um dos maiores poetas persas. Seus textos ultrapassaram fronteiras nacionais e étnicas e se tornaram conhecidos até no Ocidente.

Os famosos poemas que compõem Divan de Shams de Tabriz, com mais de 5 mil versos, cuja antologia foi publicada pela Ed. Affar (1996), foram dedicados ao grande amigo e fonte de inspiração que dá nome à obra. O encontro de Rumi com Shams ud-Din de Tabriz, em 1244, ganhou vários relatos de seus biógrafos. Nessa coletânea da Affar, traduzida por José Jorge de Carvalho, que nos lembra que versos de Rumi foram parafraseados por Goethe em Divã do Ocidente-Oriente, podemos ler estrofes emblemáticas do pensamento do mestre e poeta sufi:

                     Não penses. Não penses.
                     Os pensamentos são como a chama
                     que de alto a baixo tudo consome.

                     Perde a razão,
                     endoidece de embriaguez e assombro,
                     e de cada broto nascerá a cana-de-açúcar.

                     (...)

Entre seus trabalhos em prosa, destaca-se Fihi-ma-fihi, o livro do interior (Edições Dervish, 1993). Fihi-ma-fihi pode ser traduzido de várias maneiras, como “Nisso está o que aqui está” ou “Tudo está nisso” (RUMI, 1993, p.8). Trata-se da seleção de 71 conversas de Rumi com seus discípulos e amigos, provavelmente compiladas por seu filho Gowhar Katun.

E, na mistura de seus talentos, estão aqui 20 comentários de Rumi, para nosso deleite e espanto (foram escritos no século 13!):

  1. Não imagines que aparências similares devem ter causas similares.
  2. As pessoas aprendem indiretamente com tanta efetividade (algumas vezes mais) tanto quanto diretamente.
  3. Se queres estudar algo, deves passar através do curso completo de estudo. Se tens preconceitos sobre isto, não serás capaz de estudar nenhuma parte disto.
  4. Você é surpreendido não pelo certo e errado, mas sim pelas concepções convencionais de certo e errado.
  5. As pessoas são afetadas pelas coisas de acordo com suas características mentais e emocionais.
  6. As pessoas esperam que as coisas aconteçam de acordo com um modo por elas estabelecido. Algumas vezes, pelo menos, é melhor para elas que, ao final, não tenham a última palavra.
  7. As pessoas tentam ensinar, por exemplo, quando o que têm de fazer é aprender.
  8. Adore as superficialidades, os gritos de papagaio (inclusive se você pensa que eles são sérios) e você se perderá.
  9. Tente julgar com os instrumentos inadequados e você não alcançará nada, e inclusive prejudicará os outros.
  10. As pessoas não têm consciência da verdadeira relação oculta que os sufis têm2.
  11. Coisas que parecem inofensivas, desejáveis, inclusive da sua própria propriedade, podem ser extremamente perigosas.
  12. Nenhuma imitação cega é correta, nem a cega obediência.
  13. No ensino as coisas são repetidas várias vezes, porque as pessoas ouvem, mas não escutam.
  14. O modo pelo qual você se aproxima do que necessita pode ser muito longo, para ser o suficiente antes que seja muito tarde.
  15. As coisas que têm de ser resolvidas, têm de sê-lo no tempo certo. Este tempo, geralmente, é breve.
  16. Você pode pensar que compreende algo, mas a mais superficial experiência disto pode causar a perda de toda a sua compreensão.
  17. O mestre te ajuda quando pensas que ele está te obstruindo.
  18. O que você pensa que o está ajudando pode ser que esteja muito mais do que atrapalhando.
  19. A debilidade divisória destruirá qualquer unidade.
  20. A atitude “generosa” em direção a algo pode ir muito longe.

As máximas foram extraídas de Povo do Segredo, os guardiões ocultos da sabedoria, de Ernest Scott (Edições Ibrasa, 1983, p.261).

Notas:

1 “Sufismo e Mestre Rumi” foi o tema discutido no Domingo Cultural do dia 30 de setembro de 2012, e será ainda debatido no encontro de14 de outubro.
2 Esta relação especial é também estabelecida entre iniciados de outras linhas.

Sofia Mountian
Sofia Mountian dispensa maiores apresentações – criadora da Teoria da Abrangência, fundadora do Instituto Solaris, presidente da ONG Solaris e uma das sócias da Plênita Consultoria. Sofia, no intuito de esclarecer dúvidas sobre a Teoria da Abrangência, o crescimento do ser humano e assuntos de interesse dos solarianos, escreve mensalmente na Revista Solaris.
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