Recentemente fui visitar uma amiga de longa data e muito querida. Ela enfrenta uma doença genética degenerativa faz alguns anos. Não a vi por quase um ano e fiquei impressionada com o avanço da doença. Ela perdeu os movimentos dos dois braços e a visão de um olho. De uma pessoa cheia de vida, ativa e inteligente transformou-se em alguém completamente dependente de cuidadores.
Surgiu uma reflexão. E, se na hora de seu nascimento, esse destino lhe fosse revelado, o que mudaria? O que é uma doença degenerativa?
As doenças degenerativas comprometem gradualmente as funcionalidades das células e dos tecidos do corpo e podem ser neurológicas, articulares e metabólicas/cardiovasculares, tais como o Alzheimer, o Parkinson e a artrose.
Minha amiga tem uma doença parecida com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), que afeta a parte motora e muscular, mas a pessoa continua lúcia e consciente. Pode ser considerada uma doença genética, mais ligada a uma funcionalidade instintiva.
Então ela já nasceu com essa possibilidade. O primeiro sentido da vida é, portanto, o NASCER. Além de problemas físicos degenerativos, estamos vulneráveis a outros infortúnios, como um parto malsucedido ou a herança de um carma, que pode ser familiar ou de outras existências. O primeiro sentido não depende da pessoa.
O segundo sentido da vida é o VIVER. Aí muita coisa depende da própria pessoa. Então surge a pergunta? Como viver melhor a vida?
Não existe uma resposta fácil, muito menos única. Para nós, solarianas e solarianos, a resposta é clara: trilhar o caminho do autoconhecimento. Esse caminho, porém, não é para acomodados. A cada passo é preciso de esforço para se desapegar de um hábito que trava o movimento.
A acomodação é terrível, pois justifica a inação e a preguiça. Toda conquista consciente é uma vitória, pois confere algo inestimável: independência energética, que dá sentido a cada fase da vida. Não existe nenhuma fase da vida do ser humano desprovida de sentido, da possibilidade de plenitude e de realizações.
O terceiro sentido de vida é o MORRER. Em 2005, traduzi do russo um texto de G. I. Gurdjieff chamado “Última hora de vida”. Ele fala sobre a necessidade de se preparar para a morte. Vou tentar resumir seu precioso conteúdo.
- Importância das últimas impressões
Essas impressões é que serão transferidas para as futuras situações. Eliminar as impressões cotidianas é fundamental para que a pessoa tenha acesso às impressões que geram um estado livre de quaisquer amarras, sem nenhuma ligação com o conhecido.
Gurdjieff dá como exemplo um automóvel movido por um combustível feito da individualidade de seu dono. Dessa maneira, o carro não exige abastecimento externo e pode ser usado em qualquer lugar, seja material ou virtual. Independência completa.
- Não ter dívidas
O segundo ponto é a necessidade de manter os negócios pessoais em dia e pagar eventuais dívidas de imediato. A natureza endividada não é apenas uma questão financeira, mas principalmente carmática. Significa não criar conflitos e resolver tudo sem protelar, sem deixar para depois.
- Concluir processos
A conclusão dos processos que dependem da própria pessoa é algo bem interessante, pois, ao ser concluído e resolvido, não deixa saudades ou apego. Sabemos que uma relação está definitivamente concluída quando não existe nenhuma emoção, nem boa nem má, em relação à outra pessoa, somente serenidade.
Gurdjieff afirma que é preciso viver de uma maneira em que se possa, a qualquer momento, fazer a seguinte afirmação: “Hoje eu posso morrer, sem ter saudade de nada”.
- Cuidar da sua essência
Não podemos prever como será o último lampejo, mas podemos ter certeza e confiança na imortalidade da essência.
A capacidade de extrair e aprender a usar sua essência é a chave para se enfrentar a morte.
Morrer significa passar por algo inevitável, portanto a preparação para esse acontecimento se torna o principal sentido da vida. Enquanto nos preparamos para esse momento, nos aproximamos da nossa essência, que, não sujeita à morte, será a nossa continuidade.