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Um pouco mais sobre carma

Recentemente discutimos no Domingo Cultural o significado de Carma. Gostaria de refletir um pouco mais sobre o assunto.

Inicialmente, o que é carma? A palavra “carma” remete à “ação”. Mas que tipo de ação? Toda ação tem uma causa, veio de algum lugar. Essa ação interfere no nosso livre arbítrio, pois, queiramos ou não, ela surge.

É uma ação com causa e consequência. O carma é uma lei universal que atua em todos os níveis da vida. O ponto mais importante é entender que ele propicia continuidade. E por que as coisas continuam? Porque há ação, causa e efeito.

O carma, como diz Paul Brunton, é como uma faca de dois gumes, pode ser positivo ou negativo, ou seja, não é necessariamente ruim. Quando aparece algo bom, ninguém reclama: oh, carma! Já quando algo ruim…

Vamos entender um pouco os três tipos de carma conforme a visão de Blavatsky. Existe o carma completo (vem com tudo!), o carma da continuidade e o carma novo.   

O carma completo não tem a nada a ver com você. Não é seu, mas você o leva adiante. Normalmente, está ligado a algo familiar e atinge todos os membros. Muitas vezes envolve questões financeiras e algum membro da família precisando de ajuda. É o famoso carma familiar.  

O segundo tipo de carma, o da continuidade, está diretamente ligado às vidas passadas. Vem como a repetição de algo que precisa ser concluído. Este carma é sedutor, tentador. A pessoa se entrega a determinada situação, a determinado relacionamento, e dá seguimento a um processo já iniciado. Uma grande personagem contracenando com outras personagens. O conteúdo é conhecido por todos, que o repetem sem parar. É um grande espetáculo da vida, recheado de emoções. Com este carma há aprisionamento emocional.

Mesmo começando de forma atraente, este carma se transforma num sofrimento que deve ser obrigatoriamente superado. Podemos chamar essa situação de processo inacabado, preso no tempo. Quando a pessoa consegue se libertar, ganha uma nova chance. O padrão anterior de comportamento não voltará a se repetir. Rompendo este elo, a pessoa consegue fazer algo muito importante para si mesma: mudar seu destino. É o que chamamos de resgate cármico.

O terceiro carma, o novo, surge em função de algum “obsessor”, positivo ou negativo, que vem com força total. Habitualmente este carma começa a se manifestar na infância trazendo algum dom especial. São crianças superdotadas, mas, em contrapartida, podem apresentar problemas de saúde sérios, físicos ou mentais.

O carma novo sempre está associado a algum fenômeno desconhecido ou a algum problema que atinge muitas pessoas simultaneamente. Quando os efeitos deste tipo de carma se intensificam, é sinal de que o mundo está mudando, de que a sociedade precisa mudar. Pode ser tanto o surgimento de um gênio quanto de crianças com questões relativas à saúde, ao comportamento ou ao gênero.

O carma novo está relacionado com a humanidade, e não com uma pessoa em particular. Toda vez que este carma começa a se patentear, obriga-nos a efetuar diversas mudanças. A criança em si não tem nada a fazer. Se está com câncer, por exemplo, o que ela pode fazer? Daí vêm os pais, a ciência, o hospital. Muitas pessoas e até instituições passam a se desenvolver em decorrência de sua doença.

O carma novo (Ká intruso) funciona como uma abertura espiritual para a introdução de novas ideias que começam a modificar o destino das pessoas. O desenvolvimento científico, cultural, tecnológico e até social sempre depende de indivíduos que iniciam mudanças. É como se alguém, a partir de uma permissão superior, se habilitasse a captar, desenvolver e deixar algo como legado para futuras gerações.

Mas isso não quer dizer que este tipo de carma o torne feliz. Muito pelo contrário. Normalmente são pessoas que vivem algum tipo de conflito existencial bastante profundo e precisam de ajuda médica ou psicológica. O fato de serem diferentes e de se destacarem, muitas vezes negativamente, gera muito sofrimento a elas, reflete-se no desenvolvimento de sua personalidade e torna a vida social bastante complexa.

Hoje em dia, há diversos problemas que atormentam, principalmente crianças e adolescentes, e trazem a necessidade de eliminar conflitos comportamentais. Mas, para eliminá-los, é importante compreendê-los, sempre com suporte de alguém.

O momento em que vivemos possibilita essa façanha, afinal vivemos na era da inclusão. Os conflitos que devem ser resolvidos não são nada simples e muitas vezes exigem uma mudança existencial radical. A luta não é fácil, mas é sempre válida. A força usada na superação dos conflitos pode não ser relevante da perspectiva histórica, mas possibilita ao indivíduo dar um salto quântico fundamental em relação ao seu crescimento.

Porém é possível estabelecer um convívio com o carma novo, ou seja, ganhar permissão para se ter uma nova oportunidade na vida. A conquista dessa nova oportunidade pode ser dividida em etapas.

Primeira Etapa: Libertação

A primeira etapa envolve o despertar da vontade para se libertar de situações que provocam insatisfação e sofrimento e necessita de uma decisão de risco, pois não existe nenhuma pista de como conseguir fazer isso. Um salto no escuro, que é dado por não se aguentar a vida como ela é.

Normalmente tudo começa com a constatação do aprisionamento. A prisão está ligada a um grande medo do futuro, que justifica a inação ou a apatia. Chamamos esse estado de acomodação. A decisão de mudar é interior, baseada em algum risco e movida pela impossibilidade de tolerar determinada situação.

Segunda Etapa: Escolha

A segunda etapa abre as portas para se obter ajuda. Neste momento, a pessoa não pode trilhar o caminho sozinha. Ela é ouvida por profissionais especializados na resolução de seu problema – mestres, egrégora e até amigos –, que dão ferramentas para que novas possibilidades sejam formuladas. São feitas várias tentativas, mas ainda não são definitivas. A escolha feita dessa maneira resolve o problema, mas ainda sem a fixação necessária.

Nesta etapa, muita ajuda é oferecida, principalmente a partir de alguma conexão espiritual, que oferece seu consentimento para que o novo se estabeleça. A compreensão da informação traz a possibilidade de regeneração, a abertura de um novo caminho, antes inimaginável. A sorte brilha e acompanha o destino da pessoa.

Terceira Etapa: Liberdade

Aqui são introduzidas tarefas necessárias para que a solução encontrada se torne definitiva.

Esta etapa exige a criação de um esquema de funcionamento definitivo. A escolha assume força de lei e ganha permissão para existir no cotidiano. A essa altura, a nova possibilidade encontra condições vitais plenas para se fixar na vida concreta da pessoa. Surgem os recursos necessários, que mantêm a certeza no futuro, que certamente vai se realizar.

A liberdade em relação à velha situação é alcançada, o “NUNCA MAIS” se torna permanente, ou seja, existe uma realidade objetiva para a nova situação. O carma novo é conquistado. A pessoa muda o seu destino de vez.

Sofia Mountian
Criadora da Teoria da Abrangência, fundadora do Instituto Solaris, presidente da ONG Solaris e uma das sócias da Plênita Consultoria. Sofia escreve mensalmente na Revista Solaris.
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